sábado, 17 de julho de 2010

O auge e a decadência do futebol húngaro - Parte 1

Até meados do século passado, a Hungria era uma potência do futebol mundial. Conseguiu façanhas como ficar quatro anos invicta (entre 1950 e 1954), ser a primeira seleção não-britânica a derrotar a Inglaterra em solo inglês, além de três medalhas de ouro olímpicas (1952, 1964 e 1968) e dois vice-campeonatos em Copas do Mundo (1938 e 1954). A Hungria possuía alguns dos melhores jogadores do mundo, distribuía goleadas e era temida por todos. Porém, o futebol húngaro foi enfraquecendo com o passar dos anos. Craques não mais surgiram lá e hoje a sua seleção não consegue nem se classificar para a Copa do Mundo ou a Eurocopa. O que pode ter acontecido que causou toda essa decadência?

Surge uma potência no futebol

Desde a década de 30, a Hungria já tinha uma seleção forte. Em 1934, porém, na sua primeira Copa, pararam nas quartas de final, derrotados por 2x1 pela Áustria, que também era uma das forças da época. Em 1938, Chegaram à final com vitórias sobre Índias Holandesas (atual Indonésia, 6x0), Suíça (2x0) e Suécia (5x1). Apesar de terem o melhor ataque da competição, foram derrotados pelos italianos na final (4x2). Tiveram ainda o vice e o terceiro artilheiro da competição, Gyula Zsengellér (6 gols) e György Sárosi (5 gols).

Mas ainda estava por vir a geração de ouro dos "Magiares Mágicos"*. Em 1945, com o fim da II Guerra Mundial, encerrou-se o governo de extrema direita alinhado ao nazismo no país e entrou em vigor o regime socialista da União Soviética. Com o objetivo de usar o futebol para fazer propaganda política, o governo apropriou-se da seleção nacional e do Kispest FC, time da capital Budapeste. O Kispest, que já usava um uniforme vermelho (as cores do comunismo), teve seu nome mudado pra Honvéd que, em húngaro, quer dizer 'soldado', ou 'defensor da pátria'.

O vice-ministro dos esportes Guzstáv Sebes recebeu o cargo de treinador da seleção e a missão de formar um time campeão. Junto com seu assistente Gyula Mándi, procurou talentos por todo o país e os colocou pra jogar no Honvéd. Apesar disso, aquele que se tornou o principal jogador do time nasceu e cresceu nas vizinhanças do clube. Era Ferenc Puskás, um dos maiores jogadores de todos os tempos.

O Jovem Puskás no Honvéd / foto: Getty Images

Puskás era baixinho, alguns diziam que até acima do peso. Era péssimo cebeceador e só conseguia chutar com a perna esquerda. Mas isso não fazia diferença perto de seu enorme talento. Rápido, driblador, inteligente, excelente nos passes curtos e com um chute arrasador, Puskás ganhou o apelido de "Major Galopante". Ele jogou no time local (quando ainda se chamava Kispest) desde os 11 anos.

Não foi só o nome do time que mudou quando este passou a ser administrado pelo exército húngaro. Sebes implantou uma disciplina militar de treinamentos. Chegaram os maiores talentos do país, que acabaram formando a base da seleção. Destaque para o goleiro Gyula Grosics, o zagueiro Gyula Lóránt, os meias József Bozsik e Lázsló Budai e os atacantes Sándor Kocsis, Ferenc Puskás e Zoltán Czibor. Jogando sempre juntos, o entrosamento entre eles era o melhor possível. De mero figurante, o Honvéd passou a ser a maior força do país, vencendo o campeonato nacional em 1949-1950, 1950, 1952, 1954 e 1955. Seu único rival foi o MTK, campeão em 1951 e 1953 e que tinha três estrelas da seleção: o zagueiro Mihály Lantos, o meia József Zakariás e o atacante Nándor Hidegkuti.

A máquina húngara começa a conquistar o mundo

Aos poucos, Sebes foi dando forma à sua seleção em amistosos. Jogando em Viena, os húngaros foram derrotados pela Áustria por 3x2, em maio de 1950. Mas a partir daí começou a impressionante série invicta dos Magiares Mágicos, com uma vitória sobre a Polônia por 5x2, em Varsóvia.

Em 1952, vieram as Olimpíadas de Helsinque, na Finlândia. Com uma campanha perfeita de cinco vitórias em cinco jogos (2x1 Romênia, 3x0 Itália, 7x1 Turquia, 6x0 Suécia e 2x0 Iugoslávia), os húngaros conquistaram sua primeira grande glória e levaram a medalha de ouro pra casa.

Hungria e Inglaterra naquele que os ingleses chamaram de "Jogo do Século"

Em 1953, a Hungria foi até Wembley jogar um amistoso contra os ingleses diante de um público de mais de 100.000 pessoas. A Inglaterra nunca havia perdido em casa pra um time de fora da Grã-Bretanha, e ainda vivia um bom momento nas eliminatórias para a Copa do Mundo na Suíça no ano seguinte. A expectativa era de uma grande vitória mas, no final, todos ficaram estarrecidos: a Hungria deu um show e venceu por incríveis 6x3. Como se não fosse o bastante, na revanche disputada no ano seguinte, o último amistoso antes da Copa, os húngaros mais uma vez não perdoaram: venceram por 7x1. A Hungria era o melhor time do mundo, e só faltava vencer a Copa do Mundo para se consagrarem de vez.

Evolução tática

Taticamente, a Hungria fez o futebol evoluir. Nos primórdios do esporte, em 1860, a Inglaterra jogava com apenas um zagueiro. Em 1872 a Escócia passou a usar dois. Porém, ainda não havia organização tática em campo. Só em 1925 é que o Arsenal do técnico Herbert Chapman começou a jogar com um esquema definido, que ficou conhecido como WM. Três zagueiros, dois meias defensivos, dois meias ofensivos e três atacantes. A disposição dos jogadores em campo formava as letras WM, daí o nome da formação. Devido ao seu sucesso, todos os times passaram a usar também o WM.

Exemplo da formação WM usada pelo Arsenal.

O que Guzstáv Sebes fez foi recuar o atacante central, transformando o 'M' em um 'W'. No caso, o Nº 9, Hidegkuti, que não era forte o bastante pra bater de frente com os zagueiros, jogava como um meia avançado. Como os adversários jogavam com três defensores, o zagueiro central ficava indeciso se saía de sua posição pra marcá-lo (deixando um espaço livre nas suas costas) ou se continuava na sua posição (deixando o adversário dominar a bola com liberdade). Quando a Hungria não tinha a posse de bola, um dos homens do meio recuava, formando uma linha de quatro zagueiros (daí surgiu o termo quarto zagueiro). Foi dessa formação que surgiu o 4-2-4 usado pelo Brasil ao vencer a Copa da Suécia em 1958. Outro ponto de destaque é que os jogadores se movimentavam bastante e trocavam de posição (por isso que Sebes fez seu time treinar muito o condicionamento físico), o que originou o "Carrossel Holandês" dos anos 70.

Posicionamento dos jogadores no "WW" usado pela Hungria

E foi assim que a Hungria estreava na Copa do Mundo de 1954, depois de golear a Inglaterra por 7x1 e estar invicta por 27 jogos nos últimos quatro anos. Os Magiares Mágicos encantavam o mundo e pareciam imbatíveis. O título mundial era mais que provável.

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*O termo magiar refere-se à etnia de origem asiática que formou a Hungria. Em húngaro, magyar é usado também para se referir ao cidadão húngaro.

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