terça-feira, 26 de abril de 2011

Entrevista: Wagner Lopes - Parte 2/2

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Como foi pra você quando te chamaram pra seleção?
Putz, foi uma alegria muito grande, porque foi um país que me deu tanto... Não falando materialmente, nunca fui materialista. É claro que todo mundo gosta de conforto e de dinheiro, mas eu pensava assim: "Um país que me ensinou tanto, que me deu uma nova cultura, que me fez um homem melhor... Se eu jogar pela seleção japonesa, vou poder retribuir. Vou poder fazer o ongaeshi, que é devolver um pouco de tudo o que eu recebi." Como? Representando bem a seleção, classificando-a para uma Copa do Mundo. Então a minha forma de retribuir todo o carinho, tudo o que o país tinha me dado em termos de oportunidade, em termos de aprendizado, era ajudando a classificar a seleção para a Copa do Mundo pela primeira vez. E graças a Deus eu fui abençoado com isso, sabe? De me naturalizar, de ajudar nas Eliminatórias e conseguir a classificação. Foi a maior glória pra mim no futebol.

Wagner atuando pelo Nagoya Grampus

Sua estreia na seleção foi contra a Coreia do Sul em 1997, pelas Eliminatórias. O Japão perdeu por 2x1 em casa com o estádio lotado. Vocês ganhavam por 1x0, até que o técnico te substituiu por um zagueiro e a Coreia virou nos últimos minutos. Como foi aquela derrota pra vocês?
Foi uma tristeza muito grande. Mas se você tiver a oportunidade de ver as imagens, é emocionante. Porque no Japão eles anunciavam um por um a entrada dos jogadores, e eu fiquei por último. Toda a torcida estava esperando se eu ia jogar ou não, se eu ia ficar no banco ou não. Quando anunciou "Wagner Lopes Nº 30", o estádio veio abaixo. Eles pegaram papel picado e o estádio inteiro jogou pra cima. A minha mãe, minha sogra e minha esposa estavam no estádio com os meus filhos. Elas choraram copiosamente, falaram que nunca viveram uma emoção tão grande. Eu tenho essas imagens em casa, e nas minhas palestras, normalmente para empresas japonesas, eu mostro um pouco do que foi a minha vida profissional lá. E é muito bonito, é muito gratificante ver a reação da torcida japonesa quando o meu nome é anunciado.

Depois dessa partida, a seleção passou por um momento difícil, com três empates e uma troca de técnico (Shu Kamo saiu e entrou Takeshi Okada). Até que veio o jogo contra a Coreia do Sul em Seul e você fez o gol da vitória.
Foi. Dei a assistência do primeiro gol, ganhamos de 2x0, fui escolhido o melhor em campo... E o Japão, se não me engano, fazia 11 anos que não vencia a Coreia. E nunca havia vencido na Coreia. Então foi histórico, foi uma festa. E nesse dia eu joguei muito bem. Eu me lembro que o Narahashi cruzou uma bola na área e eu quase fiz o gol de bicicleta, o goleiro deu um tapa pra cima... Não, acho que ele pegou a bola, foi no meio do gol. Mas foi uma experiência muito grande. E eu estava com minha mãe desenganada com câncer. Uma semana após esse jogo nós fomos pra Malásia, acho que em Johor Bahru, nós íamos jogar contra o Irã no mata-mata. Se empatasse ia pro gol de ouro, se empatasse na prorrogação ia pros pênaltis. E eu peguei uma gripe porque estava nevando naquele dia na Coreia, estava -2 graus. Fiquei uma semana de cama, emagreci cinco quilos. Eu me recuperei a tempo e viajei pra Malásia, nós íamos jogar no dia 15; no dia 13 eu recebi a notícia de que a minha mãe tinha falecido. Todo mundo ficou apreensivo que eu largasse o barco e fosse embora pra enterrar a minha mãe. E aí eu tomei uma decisão muito difícil, eu não voltei pro Brasil pro enterro da minha mãe pra poder ficar com a seleção até o fim para ir pra Copa do Mundo. Essa foi a decisão mais difícil da minha vida. Eu falei pro treinador: "Okada-san, eu vou até o fim. Se você precisar de mim por 30 segundos, eu vou te ajudar o máximo que eu puder. Todas as minhas forças eu vou fazer pra classificar a seleção japonesa." E aí nós estávamos perdendo de 2x1. O Okada-san tirou o Nakayama e o Kazu e colocou eu e o Jo, dois atacantes. Nós empatamos e viramos o jogo. E classificamos no gol de ouro, gol do Oka-chan [Masayuki Okano], ponta direita veloz. Foi uma festa, o país parou pra receber a gente em Narita, foi sensacional.

O Japão conseguiu de forma dramática sua primeira classificação pra uma Copa do Mundo

Participar da Copa do Mundo, então...
Foi o maior presente que Deus me deu. Eu não tenho palavras pra poder expressar pra você o orgulho de poder representar o Japão em uma Copa do Mundo. Foi um orgulho muito grande. Quando fomos ao Palácio Imperial falar com o Imperador para ele abençoar a nossa ida, o príncipe veio, cumprimentou todo mundo... E a pena é que não é permitido fotografar o Imperador. Mas o príncipe herdeiro na época tirou foto com todo mundo, ele foi pra Aix-les-Bains com a gente fazer a pré-temporada, foi uma oportunidade que talvez um outro ser humano não tenha, essa honra de ser recebido pelo Imperador.

Nessa Copa do Mundo, existe alguma explicação para o Kazu não ter sido convocado?
Eu tenho. É uma opinião minha. O Kazu é meu amigo, é um excelente jogador, é um ícone, né? Tanto é que ele é chamado de "King Kazu". Mas eu enxergo que no futebol existe uma hierarquia. E o Kazu estava há quase dez anos na seleção. Ele é um dos maiores jogadores da história do Japão na minha visão, talvez o maior. Mas ele tinha, dentro da seleção, alguns hábitos errados. Por exemplo, ele tinha um massagista só pra ele, ele queria aquecer de forma diferente... O treinador falava e ele meio que "Não, eu faço do jeito que eu quiser". O Okada-san é uma pessoa muito boa, mas muito rígida. Na época que o Okada-san era auxiliar, eu tenho a impressão de que tiveram algum atrito de ordem disciplinar. Acredito eu, não tenho confirmação nenhuma, é pelo que eu vi. Eu acredito que a federação queria acabar com aqueles hábitos ruins do Kazu. Por exemplo, se eu quisesse fazer massagem, e tivesse o massagista lá sem fazer nada, eu não podia pedir pro cara fazer uma massagem em mim. Porque ele era exclusivo do Kazu, ele ficava à disposição do cara. E os outros jogadores... Enquanto o Kazu fez gol e jogou bem, todo mundo aceitou. Quando entrou na fase ruim, que foi justamente na época do corte...

Ele fez alguns jogos ruins e o pessoal já...
Muito ruins. Tecnicamente ele estava muito mal, nos treinos também não estava bem e aí o Okada-san teve coragem de levar os que estavam melhores na época. E isso é o trabalho do treinador. Ele não tem que convocar o cara pelo nome. Ele tem que convocar os melhores do momento, e no momento o Kazu não estava bem. Essa é a minha opinião.

E foi na Copa América de 1999 que você encerrou sua participação na seleção.
É, na seleção, em jogos oficiais, foi em 1999. Mas depois eu ainda participei em 2000 e 2001 também, mas assim, convocava 25 e eu fui cortado as duas vezes, não cheguei a ir pro jogo. Então nem consta no boletim da partida porque às vezes convocava 30 e só ia 22, e os outros 8 eram cortados, então não tive participação mais, porque eles queriam renovar a seleção, colocar jogadores jovens, enfim...

E agora, o Japão deve participar novamente da Copa América. O que você espera da seleção?
Eu acho que é uma boa oportunidade para dar mais experiência aos mais jovens. A pressão de Copa América, a pressão de jogar aqui na América do Sul... São poucas as chances que a seleção japonesa tem de jogar contra o estilo sul-americano. Eles jogam mais contra os europeus, contra as seleções da Ásia, até da África, mas da América do Sul são poucas as oportunidades, então quanto mais a escola sul-americana jogar com o Japão, melhor para o Japão, acho que adquire mais experiência, mais vivência dentro de competições de alto nível.

E como você avalia a evolução da seleção japonesa? Você acha que para a próxima Copa do Mundo, por exemplo, eles podem ter a expectativa de uma grande participação?
Eu acho que a mudança de trabalho na seleção é muito difícil. Por quê? Nós tínhamos um técnico brasileiro em 2006, o Zico; aí tentou um iugoslavo, voltou a ter um japonês, o Okada-san em 2010; e agora um técnico italiano. Toda mudança precisa de um tempo de amadurecimento, de maturação. Eu entendo que o japonês evoluiu muito, tem uma safra de jovens jogadores muito boa. Mas o que eu sempre bato na tecla é o seguinte: esses que estão jogando lá fora, nas competições de alto nível e estão se destacando, ao juntarem com a seleção, o interesse tem que ser o mesmo: Jibun no tame ni yaru janakute, jibun no kuni no tame ni ganbatte morau (jogar pelo país, não jogar por si). Jogar pelo orgulho de defender as cores do país, e não jogar pra se destacar, pra ir pra um contrato melhor, pra um clube melhor. Acho que uma coisa leva a outra. Então se todos se unirem com essa mentalidade, se todos falarem "Eu vou fazer o meu melhor para o meu país ser respeitado mundialmente", não pensando só no contrato de publicidade, é uma coisa natural, vai acontecer. A federação dando todo o suporte, dando toda a calma para que essa nova comissão faça o trabalho necessário, principalmente o trabalho motivacional... Na minha cabeça, o grande problema do Japão é a falta de confiança. O dia que o japonês tiver confiança, disciplinados do jeito que eles são, além de serem bons tecnicamente, eu acho que o Japão vai ser uma grande surpresa no cenário mundial do futebol.

O Ruy Ramos disse em uma entrevista que se jogasse Brasil x Japão, ele era 100% Japão. E você?
Eu sou 200% Japão (risos). E você sabe por quê? Porque o Brasil já ganhou cinco Copas do Mundo, entendeu? Imagina se o Japão ganhar uma, a alegria que vai ser. Eu adoro o Brasil, eu adoro o Japão. Só que vai ser muito mais divertido pro futebol se o Japão ganhar a primeira do que se o Brasil ganhar a sexta. Eu sei que se o Brasil ganhar vai ser uma alegria pro povo brasileiro, mas eu acho que o povo japonês é muito sofrido também. Com tudo que aconteceu lá; as guerras, as bombas atômicas, agora esse tsunami, esses terremotos... Eu acho que, esportivamente, se o Japão tivesse uma grande conquista, não só ganhar a Copa da Ásia como ganhou a quarta agora, mas numa Copa do Mundo no Brasil, o Japão sendo campeão, acho que seria uma alegria muito grande pro povo. Então, eu torço pro Brasil também, mas não quando joga contra o Japão. E não é pra fazer média não, eu falo isso para os outros jornalistas brasileiros também (risos).

Qual foi a partida mais memorável de toda a sua carreira?
Putz, eu tive tantas alegrias, cara... Mas acho que foi a minha estreia, contra a Coreia do Sul.


E o gol mais bonito?
Eu acho que foi um gol que tem no You Tube [veja abaixo], contra os Emirados Árabes. Chutei de fora da área, ela fez a curva, bateu na trave e entrou. Era 26 de outubro, aniversário da minha esposa. E eu nunca prometi gol pra ninguém na minha vida. Mas nesse dia eu prometi pra ela: "Eu vou fazer um gol pra você. Hoje é seu aniversário, seu presente vai ser um gol com o Kokuritsu lotado." 56.000 pessoas era a lotação, acho que tinha 60.000. Três minutos de jogo, o Kazu passou uma bola no meio-campo. Ela tava dividida, eu dei o boné no cara, dei um tapa pra frente, quando ela quicou, eu peguei de voleio, ela fez a curva... Meu, sabe a sensação, assim... Que o país veio abaixo? Os torcedores enlouqueceram, foi muito bonito, muito lindo. Marcante pra mim. Pena que o jogo empatou, depois nós tomamos o gol, bola parada, uma desatenção. Mas até hoje, às vezes eu sonho com esse gol.


Para finalizar, o que você planeja para a sua carreira no futuro?
O que eu planejo para a minha carreira no futuro? Eu não tinha planos de voltar a morar no Brasil. Mas eu contava as histórias para os meus filhos, nadando em riacho aqui no Brasil, nadando nas lagoas, andando a cavalo, subindo na árvore de jabuticaba pra chupar a fruta, e os meus filhos sempre falavam: "Pai, eu quero fazer isso também, me leva pra morar no Brasil." Aí eu prometi para os meus filhos que quando eu parasse de jogar eu os traria pra morar no Brasil. Eu voltei em 2003, mas a ideia era ficar dois anos, o tempo que demorasse a minha pós-graduação de Sport Business, depois a gente voltaria a morar no Japão. Eu amo de paixão o Japão, sei que o país está vivendo um momento difícil agora. Se eu tivesse um trabalho no Japão hoje, mesmo pra não ganhar nada, eu gostaria de voltar pra ajudar a reconstruir o país. Então a minha meta de vida hoje é fazer um bom trabalho aqui como treinador pra ter uma oportunidade de voltar a trabalhar no Japão e poder ajudar a reconstruir o que foi perdido nesse tsunami.

Wagner e eu no campo do Estádio Jayme Cintra, em Jundiaí

Agradeço ao Wagnes Lopes por ter gentilmente me recebido no centro de treinamento do Paulista, em Jundiaí. Muito obrigado também ao Ivan Gottardo, do blog Fanático pelo Paulista, e ao Gabriel Goto, assessor do clube, que colaboraram para que essa entrevista fosse possível.

6 comentários:

  1. Sensacional Tiago!!

    Parabéns pela excelente entrevista!!

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  2. Valeu Tiago pelo agradecimento. Muito boa a entrevista mesmo, achei bem interessante conhecer essas histórias do jogador Wagner Lopes e que hoje é técnico do meu time do coração. Deu para perceber que ele é mesmo uma grande pessoa!!!

    Abraços e parabéns!

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  3. Muito bom, dá até vontade de eu, que estou trabalhando para ser jogador um dia, ir lá falar com ele pra ele me mandar pra lá XD

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  4. Parabéns, Tiago. Ótima pauta, ótimo texto.

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  5. Parabéns pela entrevista, que ficou ótima. E sucesso ao Lopes, sobretudo enquanto for treinador do meu Galo!

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  6. eu falo com ele na casa dele, mais facil ! Wagnao é nois !

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